Alepisauridae é uma família de peixes actinopterígios marinhos pertencente à ordem Aulopiformes. Trata-se de uma família monogenérica, cujo único género reconhecido é Alepisaurus, integrado na subordem Alepisauroidei. Apresenta distribuição cosmopolita, ocorrendo em todos os oceanos à exceção dos mares polares, em águas tropicais e temperadas dos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico. São peixes pelágicos de grandes dimensões, podendo atingir mais de dois metros de comprimento, caracterizados por corpo alongado e comprimido lateralmente, boca ampla com dentes afiados em forma de presas, e ausência total de escamas. Habitam predominantemente as zonas mesopelágica e batipelágica, entre os 100 e os 2000 metros de profundidade, sendo considerados predadores de emboscada com uma dieta oportunista e diversificada. A família compreende duas espécies extantes — Alepisaurus ferox R. T. Lowe, 1833 e Alepisaurus brevirostris Gibbs, 1960 — e uma espécie fóssil do Mioceno, Alepisaurus paronai D'Erasmo, 1923. São frequentemente capturados como bycatch nas pescarias de atum com palangre, não existindo pescarias comerciais dirigidas à espécie.
Taxonomia A família Alepisauridae foi estabelecida por Swainson em 1839, sendo o género Alepisaurus descrito anteriormente por R. T. Lowe em 1833. Trata-se de uma família monogenérica, cujo único género válido é Alepisaurus, nome derivado do grego: a- ("sem"), lepis ("escama") e sauros ("lagarto"), traduzindo-se literalmente como "lagarto sem escamas" — referência à ausência de escamas característica destes peixes. A sua classificação insere-se na subordem Alepisauroidei, dentro da ordem Aulopiformes. A posição filogenética da família tem sido objeto de revisão ao longo do tempo, refletindo diferentes interpretações baseadas em estudos morfológicos e moleculares. As duas espécies extantes atualmente reconhecidas são:
Alepisaurus ferox R. T. Lowe, 1833 — peixe-lança de focinho longo (long-snouted lancetfish) Alepisaurus brevirostris Gibbs, 1960 — peixe-lança de focinho curto (short-snouted lancetfish) A principal diferença anatómica entre ambas reside na morfologia do focinho: longo e pontiagudo em A. ferox, e ligeiramente mais curto em A. brevirostris. Quanto à distribuição, A. ferox ocorre nas águas tropicais e subtropicais do norte do oceano Pacífico, enquanto A. brevirostris habita os trópicos e subtrópicos do oceano Atlântico e o sul do oceano Pacífico. O registo fóssil da família é escasso. É reconhecida uma terceira espécie, Alepisaurus paronai D'Erasmo, 1923, conhecida exclusivamente a partir de fósseis provenientes de estratos do Mioceno Médio da Itália. A sua existência testemunha uma história evolutiva do grupo pelo menos desde esse período geológico, há cerca de 12 a 15 milhões de anos.
Descrição Os alepisaurídeos são peixes de grande dimensão, com espécimes que podem ultrapassar os 2080 mm de comprimento, sendo considerados alguns dos maiores peixes batipelágicos viventes. O corpo é alongado e comprimido lateralmente, mais profundo ao nível das tampas branquiais, afilando progressivamente até um pedúnculo caudal estreito — morfologia adaptada a um modo de vida pelágico em águas profundas. A boca é ampla, abrindo-se até à parte posterior do olho, com dois ou três dentes grandes em forma de presas em cada maxilar, além de numerosos dentes mais pequenos. Esta dentição confere-lhes uma capacidade de captura eficaz de presas na coluna de água, adequada à sua estratégia alimentar oportunista. A barbatana dorsal é longa e muito alta, composta inteiramente por raios moles, com 41 a 44 raios, ocupando a maior parte do dorso. É arredondada no seu contorno, aproximadamente duas vezes mais alta do que a profundidade do corpo, podendo ser recolhida num sulco ao longo das costas. Atrás da barbatana dorsal existe uma barbatana adiposa. A barbatana caudal é profundamente bifurcada, com o lobo superior prolongado em longo filamento, embora a maioria dos espécimes perca esta estrutura quando capturada. A barbatana anal tem origem sob o último raio dorsal e apresenta um contorno profundamente côncavo. As barbatanas ventrais situam-se sensivelmente a meio caminho entre a barbatana anal e a ponta do focinho, enquanto as barbatanas peitorais, consideravelmente mais longas do que a profundidade do corpo, se inserem muito abaixo nos flancos. Não existem escamas, e as barbatanas são muito frágeis. O esqueleto e a musculatura são relativamente pouco robustos quando comparados com outros predadores pelágicos de natação contínua — característica que, associada à ausência de bexiga natatória, reflete uma estratégia corporal orientada para a emboscada e não para a perseguição ativa de presas.
Distribuição e habitat Os alepisaurídeos apresentam distribuição cosmopolita, ocorrendo em todos os oceanos à exceção dos mares polares, com registos de espécimes tão a norte como a Gronelândia. A espécie Alepisaurus ferox possui uma das distribuições geográficas mais amplas do grupo: ocorre no Pacífico ocidental e oriental, desde as ilhas Aleutianas até ao Chile; no Atlântico ocidental, desde o Golfo do Maine até ao Golfo do México, incluindo o mar das Caraíbas; e ainda no Atlântico noroeste e oriental, no oceano Índico e no mar da China. Registos confirmam a sua presença tão a norte como a Rússia. No que respeita ao habitat em profundidade, os alepisaurídeos são geralmente considerados peixes solitários, mesopelágicos e batipelágicos, ocupando profundidades entre os 100 e os 2000 metros. Contudo, a sua distribuição vertical é notavelmente variável e dinâmica: realizam migrações verticais diárias desde a zona epipelágica até às zonas mesopelágica e batipelágica em busca de alimento. Um estudo realizado na baía de Suruga, no Japão, revelou que o conteúdo estomacal de espécimes encalhados continha vestígios de espécies marinhas tanto da zona fótica como da zona afótica, demonstrando que se trata de uma espécie capaz de migrar entre diferentes profundidades oceânicas. A presença em águas rasas é documentada com alguma regularidade. Foram capturados em palangres a profundidades tão reduzidas como dez braças (cerca de 18 metros) ao largo do Oregon e no Golfo do México, existem relatos anedóticos de grupos de 30 a 40 indivíduos à superfície nas águas islandesas durante a primavera, e a captura com linha a partir da zona de rebentação também não é desconhecida. Inquéritos dietéticos sugerem que pelo menos alguma alimentação ocorre em águas costeiras. Apesar disso, não foi demonstrada participação em migrações verticais diurnas (diel vertical migration) de forma consistente, embora tenham sido encontrados numa enorme variedade de profundidades. Em eventos pontuais, espécimes adultos aparecem em praias. Em 2023, vários exemplares deram à costa nas praias do Oregon — peixes que habitualmente habitam águas tropicais ou subtropicais mas que por vezes se deslocam até ao mar de Bering, no Alasca, em busca de alimento. A NOAA Fisheries solicitou ao público que fotografasse e partilhasse os avistamentos.
Ecologia e comportamento
Estratégia de Predação e Alimentação Os alepisaurídeos possuem musculatura aquosa, pouco adequada à natação rápida e perseguição prolongada, sendo por isso considerados predadores de emboscada. Utilizam o seu perfil corporal estreito e a coloração prateada para dissimular a sua presença na coluna de água, recorrendo aos seus grandes olhos para detetar presas. Uma vez localizada a presa, atacam com rápidas investidas propulsionadas pela cauda bifurcada, sendo a ampla barbatana dorsal utilizada provavelmente para estabilizar a trajetória de ataque. A boca larga e os dentes são usados para subjugar a presa antes que esta possa escapar. Os dentes têm duas funções distintas: fragmentar organismos demasiado grandes para serem engolidos inteiros e cortar a musculatura do tronco da presa para inibir a sua resistência, não sendo utilizados para mastigação. São predadores vorazes e oportunistas, com estômagos distensíveis onde foram encontrados peixes, octópodes, lulas, tunicados e crustáceos. A dieta varia regionalmente: estudos de variação dietética produziram resultados inconsistentes, sendo conhecidas presas pertencentes a 98 famílias distintas.
Canibalismo O comportamento canibal é uma das características mais documentadas desta família. A denominação popular de "peixe canibal" (cannibal fish) decorre das descobertas frequentes de conespecíficos parcialmente digeridos no interior de espécimes capturados. A extensão do comportamento canibal depende da disponibilidade de presas alternativas, com frequências que variam entre 0 e 45,5%. O tamanho é também um fator determinante: peixes de menor dimensão recorrem ao canibalismo com menor frequência do que os indivíduos de maior porte.
Papel Ecológico e Utilidade Científica A combinação de grande dimensão, ampla distribuição em profundidade e dieta oportunista torna os alepisaurídeos plataformas privilegiadas para o estudo da biodiversidade pelágica profunda, permitindo inventariar organismos de pequenas dimensões difíceis de capturar por outros meios. Algumas espécies de peixes abissais foram inclusivamente descritas pela primeira vez a partir de exemplares encontrados no estômago de alepisaurídeos. Este facto é favorecido pela sua fisiologia digestiva peculiar: a taxa de digestão dos alepisaurídeos é invulgarmente lenta, com a digestão efetiva a apenas começar no intestino delgado. O estômago funciona como um grande saco cego que armazena os alimentos, permitindo uma caracterização detalhada do conteúdo ingerido. Quando A. ferox foi removida experimentalmente de determinadas regiões do Pacífico sul-ocidental e centro-ocidental, verificaram-se efeitos negativos nos ecossistemas locais, evidenciando a importância desta espécie tanto como predador como presa, desempenhando um papel estruturante nas redes tróficas pelágicas.
Ingestão de Plásticos e Pressões Ambientais Cerca de 30% de todos os indivíduos de A. ferox ingeriram plástico, sendo os fragmentos de macroplástico e pedaços de corda os tipos mais frequentemente encontrados, com preferência aparente por plásticos de cor branca e transparente. O percurso exato de ingestão permanece incerto, podendo ocorrer por migração direta para zonas epipelágicas ou pelo consumo de presas que ingeriram plástico à superfície. Num estudo no Oceano Índico, uma elevada proporção de macroalgas flutuantes (24,1%) foi registada nos estômagos de indivíduos adultos, sugerindo que alepisaurídeos de maior porte perseguem presas evasivas até refúgios epipelágicos.
Reprodução Os alepisaurídeos são hermafroditas simultâneos, à semelhança de outros membros da subordem Alepisauroidei, e carecem de bexiga natatória. A biologia reprodutiva de A. ferox apresenta particularidades anatómicas notáveis: possui dois lóbulos testiculares distintos e independentes da região ovárica, e apresenta ausência de divertículos no aparelho reprodutor feminino — estruturas que, noutros hermafroditas, são utilizadas para a captação de espermatóforos. Os hábitos reprodutivos são extremamente pouco conhecidos e a desova nunca foi observada diretamente. O reduzido tamanho das larvas e a sua transmissão pelágica sugerem que se trate de desovadores planctónicos. A sazonalidade da reprodução permanece igualmente incerta, embora presenças e ausências sazonais nas capturas tenham sido registadas em determinadas bacias oceânicas.
Relação com a Pesca Não existem pescarias comerciais direcionadas aos alepisaurídeos. A sua carne é aquosa e gelatinosa, embora comestível e descrita como de sabor agradável. São frequentemente capturados como bycatch nas pescarias de atum com palangre, sendo considerados uma praga por tomarem o isco destinado a espécies de maior valor comercial. Nas Filipinas, estudos em pescarias de palangre de atum revelaram que as capturas acidentais de A. ferox superavam frequentemente as de qualquer espécie de atum visada, e apenas um terço dos indivíduos capturados sobrevive ao processo. Os dados do Pacífico central e ocidental apontam para um aumento das capturas acidentais, associado por investigadores a uma mudança no regime faunístico resultante da redução das populações de atum patilho e atum rabilho pela pesca intensiva.
Parasitismo Os alepisaurídeos albergam uma fauna parasitária diversificada, que inclui representantes de duas classes distintas de platelmintas. Tremátodes ou Trematoda (Digenea): Botulus microporus (família Syncoeliidae) é um trematode digeneo de dimensões notáveis documentado no intestino de alepisaurídeos, sendo um dos maiores parasitas intestinais conhecidos em peixes marinhos. A sua associação com estes hospedeiros é suficientemente representativa ao ponto de a Wikipedia utilizar um espécime recolhido de um Alepisauridae como imagem de referência da classe Trematoda. Cestoda (Tetraphyllidea): Pelichnibothrium speciosum (Monticelli, 1889) é uma ténia tetrafílidea significativa do peixe-lança de focinho longo (A. ferox), sendo esta espécie considerada hospedeiro intermediário ou paraténico do parasita. A relação parasitária integra também o tubarão-azul (Prionace glauca) como hospedeiro definitivo do cestode, inserindo os alepisaurídeos numa cadeia de transmissão parasitária que atravessa diferentes níveis da cadeia trófica oceânica. O espectro parasitário completo dos alepisaurídeos permanece insuficientemente estudado, sendo expectável a presença de outros grupos de helmintes dado o seu papel central nas redes tróficas pelágicas profundas.
Estado de conservação Alepisaurus ferox encontra-se classificada como Pouco Preocupante (Least Concern) na Lista Vermelha da IUCN, avaliação publicada por Paxton em 2010. Esta classificação reflete a sua ampla distribuição geográfica, a ausência de pescarias comerciais dirigidas à espécie e a inexistência de evidências de declínio populacional significativo. Não obstante, A. ferox é frequentemente capturada como bycatch em pescarias de atum com palangre, com taxas de sobrevivência após captura estimadas em apenas um terço dos indivíduos. Os dados do Pacífico central e ocidental apontam para um aparente aumento das capturas acidentais, associado à redução das populações de atum patilho e atum rabilho pela pesca intensiva. Não existem dados suficientes sobre Alepisaurus brevirostris para uma avaliação equivalente.
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Ligações externas
Parasites of Lancetfish Presence of Lancetfish in the Gulf of Maine Fishes of Australia.net lancetfish pictures and video links